“Se os textos lhes agradam, ótimo. Caso contrário, não
continuem,
pois a leitura obrigatória é uma coisa tão absurda quanto a
felicidade obrigatória.”
(Jorge Luis Borges)
Tomei conhecimento a partir de um artigo do excelente
Gilberto Dimenstein que 180 mil jovens com formação superior não foram
suficientes e capazes para atender à demanda por 872 vagas de estágio e trainee
em empresas brasileiras.
Reflexo da crise de nosso modelo educacional, estes números,
tabulados no ano de 2002 pela pesquisadora Sofia Esteves do Amaral, indicam o
abismo existente entre o que as escolas entregam e o que as empresas solicitam.
A qualificação acadêmica está desalinhada da qualificação profissional.
É indiscutível que devemos promover uma “cruzada pela
educação”. Vender a ideia da educação para o Brasil, colocando-a como
prioridade, ao lado da saúde e da ciência e tecnologia, nas discussões
orçamentárias e de planejamento estratégico nacional. Criar o conceito de
responsabilidade educacional e infligir com a perda do mandato prefeitos que
desviam recursos das salas de aulas para a construção de estradas e outras
finalidades que lhes conferem capital político mais imediato. E investir no
docente, sua formação e sua remuneração, pois a chave da boa escola é o
professor.
Todavia, mesmo diante de toda esta breve argumentação, minha
conclusão mais precisa é que o problema da educação está na escola que ficou
chata, perdeu a graça, não acompanhou a evolução do mundo moderno. O aluno não
vê aula, quando vê não presta atenção, não se aplica nos deveres de casa e vai
mal nas provas. Lembra-me aquela máxima marxista: uns fingem que ensinam,
outros fingem que aprendem. Esqueceram-se apenas de avisar ao mercado desta
combinação.
São estes alunos que serão reprovados num simples processo
seletivo. E serão eles que, gerenciando companhias ou decidindo empreender um
negócio próprio, engordarão as já elevadas estatísticas de insucessos empresariais.
A educação perdeu o sabor. E é curioso constatar isso quando
desvendamos pela etimologia que as palavras sabor e saber têm a mesma origem no
verbo latino sapare. O conhecimento é para ser provado, degustado. É como se a
cabeça (o estudar) estivesse em plena consonância com o coração (o gostar).
Cozinhando palavras
O que me faz avançar madrugada adentro postado diante de uma
tela, digitando em um teclado, com música ao fundo e pensamento ao longe,
produzindo artigos como este? A resposta está no desejo de escrever um texto
que traga prazer ao leitor tal qual o banquete preparado por um cozinheiro a
seus convidados.
Todo escritor tem duas fontes de inspiração: uma musa e
outros escritores. Minha musa é o próprio mundo, uma obra de arte, um livro dos
mais belos para quem o sabe ler. Já meus “padrinhos” são tantos que não posso
colocar-me a relacioná-los. Acabariam as laudas, faltaria paciência ao leitor e
eu incorreria invariavelmente no pecado capital da negligência, deixando de
citar nomes por traição da memória.
Rubem Alves é um destes nomes. Vem dele a inspiração desta
metáfora que envolve escritores e cozinheiros. Minha cozinha fica numa sala.
Minha bancada é uma mesa. Meu fogão é um computador. Minhas panelas são minha
cabeça. Meus ingredientes são as palavras. Vou selecionando-as, misturando-as e
provando de seu resultado. Saboreio com os olhos e cuido para que temperos em
excesso não comprometam outros sabores.
Há dias em que estou tomado pela culinária italiana. Então
produzo textos encorpados que alimentam a consciência e que pedem uma taça de
vinho tinto, cor de sangue, de contestação. Corpo e sangue. São os momentos de
questionamento da ordem, este prazer da razão, banhado pela desordem, esta
delícia da emoção.
Em outros dias, sinto-me inspirado pela cozinha francesa. É
quando me torno econômico no uso dos ingredientes, mas extravagante no uso dos
temperos. É quando surgem os textos mais leves na forma e mais profundos em seu
conteúdo, convidando todos a uma demorada reflexão.
Assim sucedem as semanas, sucedem os artigos. A cada semana
um prato novo. Alguns nascem naturalmente, demandam pouco tempo de cozimento.
Outros, por sua vez, ficam dias no forno. Consomem uma quantidade incrível de
palavras. Letras que vêm e que vão. Chegam mesmo a queimar os dedos, mas
finalizá-los tem seu propósito ao imaginar a satisfação de quem os lerá,
estampada no brilho dos olhos, no sorriso de canto de boca.
Assim entrego-me a este ofício, marchando pitagoricamente
com o pé direito para as minhas obrigações e com o pé esquerdo para os meus
prazeres, tendo a certeza de que o escrito com esforço será lido com
apreciação.
Paul Valéry dizia que um homem feliz é aquele que, ao
despertar, reencontra-se com prazer, reconhecendo-se como aquele que gosta de
ser. Saber o que se é e o que se deseja ser: quanto sabor há nisso!
* Tom Coelho é educador, conferencista e escritor com
artigos publicados em 15 países. É autor de “Sete Vidas – Lições para construir
seu equilíbrio pessoal e profissional”, pela Editora Saraiva, e coautor de
outros quatro livros. Contatos através do e-mailtomcoelho@tomcoelho.com.br.
Visite: www.tomcoelho.com.br
e www.setevidas.com.br